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Feb 2018

Criança ocupada demais deixa de ser criança

Já se foi a época em que criança era apenas criança, com a única obrigação de ir para a escola, brincar e ser feliz. Reflexo de uma realidade social diferente, onde os pais estão tendo melhores acessos e oportunidades para investirem na formação dos seus filhos, é cada vez mais comum ver os pequenos atarefados e cheios de compromisso como os adultos. É aula de idiomas, natação, música, esportes, balé, aulas particulares de reforço, dentre outras que tendem a deixar a criança exausta e capaz de desenvolver um comportamento competitivo e individualista.
 
Mesmo que se prese pela capacitação das crianças é preciso entender que a infância é a fase onde elas devem brincar, pois não serão crianças novamente. As próprias brincadeiras são capazes de estimular uma série de habilidades e competências que nenhuma outra atividade paralela poderá ensinar. E ao contrário, muitos pais acreditam que ao deixar a criança ocupada o dia todo estão auxiliando na sua educação, mas não é bem assim. O pediatra, pesquisador da UFRJ e um dos criadores do programa Saúde da Família, Daniel Becker, é enfático. "Nós vivemos uma cultura de excesso de valorização da aprendizagem com adultos, é um paradigma da escola do desenvolvimento. Como se o desenvolvimento de uma criança só se desse na sua interação com adultos, em aulas, supervisões, atividades programadas e estruturadas. Quando, na verdade, isso só provê essa criança de um tipo de ganho, um tipo de inteligência", esclarece.

O pesquisador ainda defende a ideia de que muitos pais têm a crença de que com esse excesso de atividades, as crianças se tornarão mais prontas para o mercado e pondera. "Uma criança que brinca no parque com amigos vai aprender a negociar, interagir, ter empatia, ouvir o outro, se fazer ouvir, avaliar riscos, resolver problemas, desenvolver coragem, autorregulação, auto estímulo, criatividade e imaginação. Uma série de habilidades que nenhuma aula vai oferecer a ela. Brincando, ela vai cair e ralar o joelho. Porque a vida dói, a realidade dói. Mas passa. E, no dia seguinte, o machucado ganhou uma casquinha, o corpo está reagindo e fazendo alguma coisa", completa.

Vale reforçar que as atividades extras são, sim, importantes para o desenvolvimento da criança, mas não podemos esquecer que para tudo há limites, se a carga for muito excessiva, uma hora ela vai sentir as consequências. Uma boa alternativa é alternar as atividades com a escola e as brincadeiras para sobrar tempo para a criança ser realmente criança.



Fonte: Instituto MRV
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